
OS LIVROS DO MÊS
OS LIVROS DO MÊS pretende ser uma actividade permanente da Biblioteca da Escola, através da qual destacaremos um autor, de preferência no dia do seu aniversário de nascimento.
Hoje é o aniversário de Teixeira de Pascoaes, poeta, ensaísta, romancista, filósofo e também pintor português, infelizmente pouco lido e estudado em Portugal. Porque é amarantino integral - nasceu em Amarante, em 1877, numa rua do centro histórico, mais tarde viveu no Solar de Pascoaes em São João de Gatão, ainda em Amarante, e aí morreu em 1952 - parece que deve ser confinado aos limites estreitos da cidade e das gentes amarantinas. Contudo, a sua obra é universal e vastamente traduzida e conhecida no estrangeiro, nomeadamente na Alemanha e nos Países Nórdicos.
Não é um escritor de leitura fácil e a sua poesia, dominada pela melancolia solipsista perturba o leitor que pode deixar-se contaminar e deprimir pelo saudosismo elegíaco dos seus textos. As suas biografias romanceadas entre as quais se destaca São Paulo, Santo Agostinho, Napoleão reflectem o seu modo específico de pensar em termos políticos, religiosos e sociais. Do ponto de vista filosófico é o mentor do Saudosismo, essa originalidade da filosofia portuguesa, e nessa corrente encontramos nomes como Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, António Carneiro, António Sérgio e, pela sua vertente de sebastianismo messiânico, Fernando Pessoa.
A Biblioteca da Escola Secundária do Marco de Canaveses vai homenagear o poeta das Sombras durante esta semana e a partir de hoje, com uma exposição biobibliográfica para a qual se convida toda a comunidade escolar, entre outras actividades pertinentes.
Escolhemos um poema carismático deste autor para assim o relembrar no dia do seu aniversário.
CANÇÃO DE UMA SOMBRA
Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das causas,
Eu não era o que sou.
Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós, cantava e que secou...
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.
Ai, se não fosse este luar que chama
Os aspectos à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.
E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços
Eu não era o que sou.
Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.
Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou.
Teixeira de Pascoaes, AS SOMBRAS
